
Foto: Ascom/SMS
Ter o olhar voltado para uma parcela da população muitas vezes incompreendida e vítima de diversas formas de preconceito é a missão do Projeto de Redução de Danos (PRD), desenvolvido pela Prefeitura de Aracaju, através da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).
O trabalho é realizado junto a pessoas em situação de rua, profissionais do sexo, usuários de álcool e outras drogas e adolescentes que cumprem medidas socioeducativas, um esforço para dar apoio e suporte àqueles que são marginalizados pela sociedade.
Implantado no ano de 2002, o projeto desenvolvido em Aracaju é o único do país que se mantém dentro da política de Saúde e, desde 2011, faz parte da Rede de Atenção Psicossocial e atua em parceria com o projeto Consultório na Rua. Atualmente, o Projeto conta com 15 profissionais das áreas de saúde e também acadêmicos e representantes de movimentos sociais voltados às causas incorporadas pelo PRD, como explica a coordenadora Daniele Alves.
“O trabalho é desenvolvimento no território e nas cenas de uso, no caso de álcool e outras drogas, e nas cenas de prostituição. Com a pandemia, direcionamos mais para as pessoas em situação de rua e profissionais do sexo, o que não quer dizer que não acompanhamos as demais pessoas”, destaca.
Segundo Daniele, isso ocorre porque esses grupos, especificamente, estão com maior vulnerabilidade diante da pandemia. “Assim, em nossas ações, fazemos distribuição de preservativos, lubrificantes, luvas, copos e panfletos informativos. No entanto, nosso papel também é o de dialogar sobre educação em saúde. Trabalhamos diretamente com os usuários, mas ainda com a rede, nos Caps, nos Cras e Creas, no Centro Pop, nas UBSs e com os agentes comunitários de saúde. Portanto, articulamos as ações para que a rede como um todo funcione para esses públicos”, detalha a coordenadora do PRD.
Hoje, são cerca de 1.900 acessos mensais realizados pela equipe do projeto, sendo que, dentro deste número pode haver o atendimento a uma mesma pessoa mais de uma vez. “No geral, não temos dificuldade com as pessoas atendidas pelo projeto. Nossa dificuldade é em estabelecer o entendimento por parte da população em geral porque muita gente acha que nosso trabalho é tirar pessoas da rua ou fazer com que as pessoas parem de usar drogas, e essa não é a nossa lógica de cuidado”, salienta.
“Atuamos com os públicos, mas também com suas famílias, com as comunidades e, através do diálogo, construímos um vínculo para o cuidado. Não é da nossa alçada julgar quem quer que seja. Nosso trabalho é cuidar, orientar e encaminhar para o serviço que for necessário. Infelizmente, há uma construção histórica em cima dessas pessoas e temos que buscar as melhores saídas para os problemas encontrados”, frisa Daniele.
O intuito é mostrar a esses grupos que é possível não comprometer tanto a saúde e o corpo. A coordenadora frisa que o trabalho parte do princípio segundo o qual a pessoa não tem que parar de usar drogas para ter acesso ao cuidado, por exemplo.
“Temos que orientar a pessoa para que, caso seja um desejo dela continuar usando, e cabe a nós respeitar o direito que ela tem sobre si mesma, que ela use da forma que a prejudique menos. É uma lógica que não é simples de compreender, mas o que passamos para elas é que, independente do que façam, nossa equipe estará junto e daremos o suporte, pensando em estratégias de redução de danos. É a partir desse não julgamento que passamos a construir o vínculo e, aí, levamos aos cuidados necessários”, complementa a coordenadora.
Mais do que um suporte à saúde, o PRD é o acolhimento emocional para quem foi colocado à margem. “Muitas vezes, não chegamos aos usuários de drogas para falar sobre drogas, mas para falar sobre vida, sobre cuidado. Lidamos com pessoas em extrema vulnerabilidade, então, com essa acolhida, conseguimos ofertar tanto cidadania e acesso a direitos, como o suporte emocional de quem, muitas vezes, se encontra naquela condição justamente por não ter tido o apoio que necessitava”, completa Daniele.
Fonte: AAN