Artigo: coronavírus, quarentena e as importantes decisões que cabem a nós

| 25 de março de 2020

“Mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir”.  Neste momento difícil de apreensão e incertezas em relação ao coronavírus, trago a sensatez espiritual, a sensibilidade precisa, o pragmatismo poético de Cora Coralina, para tentar iluminar um pouco este momento de sobressaltos.

E ela está certa. O importante é o decidir. Vivemos o exato instante capital em que a dinâmica dos fatos e da vida impõe uma tomada de decisão: – vamos ser reféns da passividade, do egoísmo e da angústia? – Ou seremos protagonistas de uma vitória de coesão social, talvez nunca vista nos tempos mais recentes?

Digo isso, porque o momento é sim de escolhas duras e vitais. A quarentena é uma destas escolhas onde se anda no fio da navalha. Maioria dos estabelecimentos fechados, nenhuma pessoa nas ruas (assim se espera, salvo o estrito necessário), milhares em casa em isolamento (muitas vezes distantes dos entes queridos), e alguns heroicamente na frente de batalha lidando com o risco da contaminação. Diferentes consequências, diferentes papéis, e, parafraseando o Almirante Barroso, a humanidade espera que cada um cumpra o seu dever.

Sim, porque dos maiores encargos aos mais simples, em uma batalha de tão grandes proporções, como disse o Ministro Mandetta: – todos os cuidados de todos os atores são essenciais. Neste contexto, são por óbvio imprescindíveis os heroicos profissionais de saúde, que incansavelmente trabalham para que a vitória da vida prospere contra o vírus, mesmo sob a perene ameaça de também serem contaminados. Como também, os grandes profissionais dos setores de abastecimento, energia, distribuição de água, transportes, telecomunicações, serviços públicos, entre tantos outros (e neste ponto desde já peço desculpas por qualquer omissão), que também têm deixado suas casas todos os dias, para que um mínimo de normalidade se mantenha no momento atual e no pós-pandemia. Como ainda, todos os outros que se mantêm em suas casas, em trabalho remoto ou cuidando de suas famílias, apostando em um futuro melhor.

Claro, porque os que estão em casa também têm muitas missões e deveres em relação ao Covid-19. O mais óbvio, e que tem sido repetido à exaustão é o de que preferencialmente não saia na rua, e evite se expor e expor os outros ao risco de contaminação. Lembrando que este é um dever não somente de autoproteção, mas principalmente de alteridade, já que está comprovado, que muitos carregam o vírus de forma assintomática e que, circulando, podem levar a doença a muitas outras pessoas. Pessoas inclusive com grande probabilidade de desenvolver sintomas e consequências severas, como os imunodeprimidos e os idosos. (Logo, não é uma questão de autodeterminação – não me importo em ficar doente. É uma questão de solidariedade, altruísmo, e mais do que isso, de dever, inclusive jurídico, para com o outro.)

Mas existem outros deveres relevantes, para aqueles que estão em quarentena. Cito, por exemplo, o dever ético de se manter útil e produtivo neste período. Se pode trabalhar remotamente, trabalhe. Cumpra suas obrigações. Não é férias e a economia precisará muito deste labor para minimizar os danos da epidemia. (O mesmo vale para os estudantes:  – que maravilhosa oportunidade de colocar os assuntos em dia, hein?). 

Se não tem trabalho remoto, minha sugestão é aproveitar o tempo de modo eficiente e que gere um positivo para o futuro. Aprender habilidades novas, enriquecer o currículo profissional, ou mesmo organizar os papéis e a casa, são atitudes de semente e organização para o futuro pós-coronavírus. E, principalmente não gaste sua energia psíquica, lendo, espalhando fake news, ou desdenhando das instruções governamentais pró-quarentena.

Antes de criticar as autoridades, é de se ter em mente algo que acontece sempre, em qualquer relação humana, que é a assimetria de informações. Sempre alguém tem mais informações para decidir sobre um fato do que outra pessoa. Vemos isso claramente nas relações entre pais e filhos. Nós, pais, vivemos mais, temos mais experiências e sabemos que provar bebida antes do tempo, provar droga em qualquer tempo, pequenas mentiras e corrupções, más companhias, podem levar a destinos trágicos. Os jovens muitas vezes não entendem, pois lhes falta perspectiva e disponibilidade de exemplos de que determinada conduta não dá certo. Prevalece neles o prazer imediato, o aqui e agora, a emoção perdida. Por isso, a revolta, o ato impensado e depois o arrependimento.

Outra questão, que deve ser levada em conta é o ineditismo na situação. Estamos aprendendo na prática e na prática de outros países. A incerteza envolvendo os resultados das políticas públicas é muito grande, por isso, às vezes, pode se errar na medida, corrigindo-se depois. (E, na dúvida, a balança deve pender para a vida).

No caso do coronavírus, o Ministro da Saúde tem sido elogiado pela condução técnica e transparente que vem procedendo, demonstrando ter à sua disposição as informações científicas mais procedentes e relevantes; como assim a sua abertura ao diálogo tentando tratar do modo mais individual possível, as muitas epidemias que acontecem ao mesmo tempo no solo brasileiro. (Cada local tem suas especificidades, realidades e diferentes necessidades).

Sendo certo, no caso da quarentena, é importante que se diga para aqueles que se reportam contrários, que ela existe exatamente para achatar a curva epidêmica e ganharmos tempo. Tempo para modularizar as infecções para que elas caibam na capacidade de atendimento hospitalar. Tempo para produzir mais testes para identificar o covid-19 nas pessoas. Tempo para desenvolver estratégias de tratamento mais eficazes. Tempo para ampliar a capacidade hospitalar (mais UTIs, respiradores, hospitais de campanha, profissionais contratados excepcionalmente). Tempo para substituição das medidas de supressão com a quarentena, para medidas de distanciamento social (máscaras e prevenção de aglomerações e aproximação entre as pessoas), o que demanda uma imensa conscientização de todos, criação de novos hábitos e normalização de costumes – o que não se consegue da noite para o dia.  E o mais importante, tempo para que não ocorra no Brasil tragédias de doentes falecerem desassistidos e enterros sendo feitos de modo coletivo sem presença de familiares.

Neste ponto, urge ressaltar que o tempo ganho, tem que ser bem aproveitado – e esta talvez seja a mais importante decisão a ser tomada pelos gestores do Poder Público. (Até porque a quarentena tem cobrado um esforço econômico tremendo, e este esforço tem que fazer sentido).

Mas, voltando aos deveres éticos de todos, entendo que o mais importante dever ético nestes momentos de quarentena é tentarmos nos manter bem, física e espiritualmente. Tudo porque não se pode sobrecarregar o sistema de saúde, logo não devemos colaborar com o surgimento de qualquer tipo de doença (coronavírus ou qualquer outra) neste período (e se possível em nenhum outro). Lembremo-nos que cada demanda submetida a um hospital, pode significar a falta de atendimento a outra.

Para tanto, urge cuidar do físico, fazendo exercícios, movimentando-se nem que seja dentro de casa e regrando a alimentação, para não cairmos nos memes de explosão de peso depois da quarentena. Disciplina e determinação são palavras de ordem.

Mas, principalmente, precisamos cuidar em manter o pensamento ativo, e astral o mais elevado possível. Neste ponto, disciplina também é relevante. Para tanto, duas sugestões. A primeira é não passar o dia todo contabilizando eventuais mortes e casos confirmados do vírus, ou mesmo antecipando eventual colapso econômico. Informação é relevante para traçarmos estratégias e visualizarmos cenários, para a tomada de decisão. Mas informação na medida certa. 

Acredito que acompanhar os noticiários noturnos e eventuais manchetes da internet e avisos de utilidade pública sejam suficientes para saber e ter responsabilidade para com o que está acontecendo. Mais do que isso, é consumir tempo e energias vitais para o aproveitamento da quarentena, como vimos acima, em atividades positivas (temos uma energia limitada de atenção, aprendizado e criatividade, se colocarmos toda esta energia em função do stress, nada sobrará para atividades produtivas).

A segunda sugestão é o exercício da oração. E, neste ponto, não importa a religião (ou mesmo a ausência dela); o que importa é a sintonia em sentimento de solidariedade, fraternidade, altruísmo e confiança de que este momento difícil também passará, e que a vida continuará como sempre continuou em crises, já vividas por outras pessoas, nos dias de hoje, ou em outras eras. (Já é provado que a oração é um indutor do bem-estar físico e mental).

Esta é uma decisão que cabe a todos nós – atravessar este mar bravio com seriedade e fé. Viveremos muitos desafios ainda durante a pandemia e principalmente depois, onde junto a dor dos que adoeceram, a saudade dos que partiram, será necessária a reconstrução econômica e de valores de nossa sociedade. E, como todo recomeço, esta será certamente uma enorme oportunidade de colocarmos as pessoas no seu lugar merecido, como centro das preocupações da humanidade. (Outra e talvez ainda mais primordial decisão que cabe a todos nós).

Por João Augusto Bandeira de Mello

Procurador do Ministério Público de Contas

Category: Capital, Destaques

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